O Rei Estranho e o Tubarão nos Trópicos

O primeiro rei do Tibete, fundador da duradoura dinastia Yarlung, teria reinado por volta do século II d.C. A literatura histórica antiga descreve-o como portador de todas as marcas de um mahāpuruṣa — um grande homem. Essas, no entanto, não são características comuns. Algumas delas incluem: mãos e pés com membranas interdigitais, semelhantes às de um sapo; quarenta dentes de igual comprimento; uma língua extremamente longa, capaz de alcançar o topo da cabeça; cerca de três metros de altura e membros alongados que permitiam tocar os joelhos sem se curvar. Ao se depararem com essa figura extraordinária, os tibetanos perguntaram de onde ela vinha. Incapaz de falar a língua local, a figura apenas apontou o dedo para o alto. Interpretando isso como um sinal de que ele viera do céu, os tibetanos carregaram a figura nos ombros e a aclamaram como seu novo rei. Nyatri Tsenpo — o nome do rei — foi o primeiro de uma linhagem de governantes que desciam do céu por uma corda feita de luz. Esses reis não nasciam nem morriam; suas vindas e partidas eram mediadas pela corda celestial e, quando seu reinado chegava ao fim, eles simplesmente subiam de volta ao céu pela mesma corda pela qual haviam descido.

Essa noção de uma figura estrangeira exercendo poder político sobre uma terra que não é a sua é um tropo surpreendentemente comum em muitas mitologias ao redor do mundo. O fenômeno foi observado pelo antropólogo Marshall Sahlins e descrito como o mito do “Rei Estranho”. Em seu trabalho nas Ilhas Fiji, ele documentou vários contos populares centrados nesse padrão; em um deles, a história da linhagem dos governantes Noikoro, em Fiji, é atribuída ao cruzamento entre “um estranho bonito e de pele clara” e um tubarão. O conto ecoa diretamente um provérbio havaiano que Sahlins nos recorda: “um chefe é um tubarão que viaja em terra firme”.

A imagem do tubarão diz muito. Tubarões não são animais dóceis; são predadores que devoram seres humanos. Um ponto que Sahlins apresenta de forma convincente é que o “Rei Estranho” é alheio, entre outras coisas, à moralidade do homem comum. Muitas vezes, seu caráter “estrangeiro”, manifesta-se por meio de atos violentos que rompem com os costumes locais socialmente aceitos — como assassinato, incesto e outras transgressões. Ao exibir imoralidade e devassidão, o Rei Estranho não provoca a repulsa que pessoas comuns despertariam se fizessem o mesmo. Em vez disso, ele se distingue como alguém situado além da moralidade e, portanto, acima dela — como um agente supramundano capaz de estabelecer uma nova ordem moral. Como Sahlins descreve eloquentemente: “para ser capaz de pôr a sociedade em ordem, o rei deve primeiro reproduzir uma desordem original. Após cometer seus atos monstruosos contra a sociedade, provando ser mais forte do que ela, o governante passa a extrair ordem do caos. Recapitulando a constituição inicial da vida social, a ascensão do rei é uma recriação do universo. O rei faz sua entrada como um deus”.

Em contextos coloniais — onde a violência e a exploração estão enraizadas na própria formação das sociedades —, essas mitologias entrelaçam-se com as próprias forças coloniais. No Havaí, dizia-se que o Capitão Cook era visto como uma representação da divindade local Lono e celebrado como o predecessor divino do próximo chefe havaiano a assumir o poder. Em minha terra, o Brasil, as lendas do Sebastianismo falavam do retorno milagroso do Rei Sebastião de Portugal ao país — após seu desaparecimento na Batalha de Alcácer-Quibir, no século XVI — para civilizar a nação e domar suas tendências selvagens. Em algo semelhante à Síndrome de Estocolmo, o povo colonizado passa a saudar os colonizadores não como parasitas exploradores que os sangram até a quase morte, mas como as próprias forças capazes de civilizar sua natureza corrompida e depravada.

Daqui duas semanas, o Brasil realizará o segundo turno de uma eleição entre Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, o atual presidente, que busca seu terceiro mandato. Os resultados do primeiro turno contrariaram as pesquisas, que indicavam uma leve vantagem para Lula. Em vez disso, Flávio Bolsonaro já conquistou a maioria dos votos no primeiro turno, e seus aliados políticos garantiram uma maioria expressiva no Congresso.

Flávio é filho de Jair Bolsonaro, que atualmente cumpre prisão domiciliar após ter sido condenado por planejar um golpe de Estado que incluía o assassinato de Lula e de seu vice-presidente. A família Bolsonaro tem sido implicada em diversos escândalos que vêm surgindo no noticiário brasileiro nos últimos anos. Embora as acusações sejam variadas, um traço comum à maioria delas é a associação com a violência. As vozes mais críticas a Lula concentram-se em seu caráter desonesto. No imaginário da oposição, Lula e seu partido são retratados como “ladrões” e “corruptos”. Ao grupo de Bolsonaro, acrescenta-se uma outra dimensão: a violência e a agressividade. Eles não são acusados ​​apenas de serem meros golpistas, mas também criminosos perigosos.

Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio e ex-policial, se autoexilou nos Estados Unidos buscando atrair atenção norte-americana para a política brasileira. A alegação geral é que o Brasil está “mergulhado no crime e na corrupção” e precisa de uma força estrangeira poderosa para intervir em seu favor. O fato de essa força estrangeira ser justamente os Estados Unidos, que agora se encontra à mercê dos caprichos de seu próprio Rei Estranho, e cujo histórico de intervenções violentas na América do Sul é bem documentado, não surpreende. Para os apoiadores mais fervorosos da mitologia Bolsonarista, a ideia de que seu próprio país seja colonizado pela “América” não é senão uma boa nova. A influência colonizadora dos Estados Unidos é vista como o único meio de livrar uma nação falida de suas elites governantes decadentes e depravadas.

A construção da persona Bolsonaro, desde o início, se baseou nessa imagem do “outsider”. O próprio Jair Bolsonaro cultivou cuidadosamente uma identidade de rebelde recém-chegado ao mundo político, lutando sozinho contra estruturas de poder corrompidas que o veem como uma ameaça ao status quo. Seus apoiadores o apelidaram de “mito”, o que é bastante apropriado. Apropriado porque o que um mito frequentemente representa é uma versão sobrenatural de seu oposto natural. Mitos de uma terra celestial de abundância brotam em desertos varridos pela seca — a garganta que tem sede sonha com rios infinitos. Em vez de serem verdadeiros forasteiros, o clã Bolsonaro representa as estruturas de poder mais conservadoras, tradicionais e consolidadas da história brasileira, surgidos de nada menos que a antiga capital colonial, o Rio de Janeiro.

Os mitos podem ajudar a aplacar inseguranças impossíveis de resolver, sendo a morte a experiência humana mais permeada pelo pensamento mitológico. Mas as inseguranças que afligem os brasileiros — ou o mundo afora — não são cósmicas ou sobrenaturais, muito menos insolúveis. Elas estão materialmente enraizadas em estruturas de poder rígidas de exploração violenta e acumulação infinita de riqueza por poucos às custas de muitos. Nesse sentido, as compensações simbólicas apresentam limites para resolver os problemas materiais. Alguns dos políticos mais bem-sucedidos nesta eleição basearam suas campanhas na “estranheza” do povo comum, que, por ser nativa, é rejeitada. O discurso político se desloca do mundo real e suas inseguranças concretas para um mundo imaginário, mitológico, no qual o “bem” — o “Rei Estranho” — vence o “mal” — o “Povo Estranho”: pessoas transgênero, religiões afro-brasileiras, imigrantes e assim por diante.

Em meio às notícias desconcertantes da súbita vantagem de Bolsonaro nas eleições, a oposição tem tentado mobilizar o eleitorado retratando a família como um grupo de monstros, o que, em grande medida, não parece surtir efeito. A imoralidade e a barbárie percebidas no clã Bolsonaro não são apenas razões insuficientes para dissuadir seus eleitores, mas servem, ao contrário, para validar seu papel como uma força estrangeira capaz de reformar uma sociedade corrupta. A violência que representam se traduz em um efeito de poder por procuração que intoxica as várias camadas da sociedade brasileira que vivenciam uma lenta e contínua degradação de sua segurança material concreta, em particular a classe média. Não é de se admirar que a mitologia Bolsonarista seja tão popular entre pessoas de mais idade, um grupo cada vez mais impotente diante de sociedades que tratam os seres humanos como recursos descartáveis, a serem jogados no lixo assim que não podem mais vender sua força de trabalho. O artifício perigoso reside no fato de que o clã Bolsonaro está acorrentado a dogmas neoliberais que continuarão a servir o país com a mesma precariedade material que atualmente o assola. A compensação oferecida pelo clã é meramente simbólica. E quando as necessidades concretas não atendidas da população começam a se chocar com as compensações simbólicas — um processo que pode ocorrer muito rapidamente —, cresce a pressão para que a compensação ultrapasse a barreira do simbólico para o real. Uma pressão para que a barbárie — promovida como um substituto para força e poder — deixe de ser apenas verbalizada e se torne prática.

Diante dessa encruzilhada, a história geralmente segue um de dois caminhos. No Havaí, o Capitão Cook envolveu-se em um conflito com os nativos durante sua terceira expedição, por causa de um barco roubado. As tensões explodiram; Cook e sua tripulação abriram fogo contra a população, que se rebelou e revidou com clavas e pedras. James Cook foi morto e, posteriormente, teve seu corpo esquartejado conforme rituais tradicionais. Começaram a circular lendas de que os nativos — tal como tubarões — o haviam devorado. Na Bahia, Brasil, o movimento de Canudos propagava ideias messiânicas sobre o retorno de Dom Sebastião como um monarca escolhido por Deus, destinado a substituir a recém-instituída república. O movimento transformou-se em uma rebelião armada e foi brutalmente reprimido pelas autoridades republicanas, resultando em um número estimado de quinze a trinta mil pessoas assassinadas. É impossível prever o desfecho desse momento delicado da história brasileira. As apostas sobre o futuro estão lançadas. Minha esperança sincera é que meu país encontre a paz. Contudo, se eu fosse forçado a escolher entre as duas opções, apostaria nos mitos ancestrais brasileiros. Meu voto é nos canibais.